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17 janeiro 2013

A mulher no comando



1ª capitã brasileira de longo curso vai comandar navio de 183 metros


Transpetro recebe nesta quinta navio de produtos Rômulo Almeida.
Será a primeira embarcação com duas mulheres no comando.



 Quando entrar em operação, nesta quarta-feira (17), o navio Rômulo Almeida terá "atrás do leme" a primeira brasileira a atingir o posto de capitã de longo curso – ou seja, habilitada a comandar qualquer tipo de navio.
“É uma realização profissional e, como comandante, um desafio", diz a capitã Hildelene Lobato Bahia. “Saí de um Fusca para uma Ferrari”, brinca ela. A "Ferrari" em questão é o Rômulo Almeida, e o Fusca, o "Carangola", navio que lhe deu o primeiro comando em 2009 e do qual guarda saudades e carinho.
Com 183 metros de comprimento, o Rômulo Almeida é a quarta embarcação do Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef). O "Gigante de Aço" foi construído no Estaleiro Mauá, em Niterói, na Região Metropolitana do Estado do Rio, com capacidade para 56 milhões de litros de combustíveis, e será usado para o transporte de derivados claros de petróleo, como gasolina e diesel, informa a Transpetro. É também o primeiro do Brasil a ter duas mulheres no comando: além de Hildelene, terá Vanessa Cunha como imediata.
Hildelene Lobato Bahia, comandante do navio Rômulo Almeida (Foto: Divulgação/Renata Mello/Transpetro)Hildelene Lobato Bahia, comandante do navio Rômulo Almeida (Foto: Divulgação/Renata Mello/Transpetro)
O comando do Rômulo Almeida foi o grande presente que Hildene recebeu de aniversário, comemorado na segunda-feira (14), quando completou 39 anos. "É um navio moderno, com tecnologia de primeira. (...) Foi um presentão de aniversário. É importante para um profissional partir do zero, conhecer o navio, formar a tripulação. Mas dá saudades do Carangola, meu primeiro comando. Fica um sentimento de mãe, ou de órfã”, diz ela.
Hildelene é pioneira: foi a primeira mulher no Brasil a chegar ao cargo de imediato e se tornou também a primeira comandante da Marinha Mercante Brasileira. Nascida em Icoaraci, distrito de Belém, no Pará, ela se formou em ciências contábeis pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e prestou concurso, quase que por acaso, para a Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante. Fez a prova apenas para acompanhar o irmão, e para a sua surpresa foi aprovada e passou a integrar o primeiro quadro feminino do Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar, em Belém. Já o irmão não passou.
Em 2003, foi aprovada no concurso público da Transpetro e passou a ser uma das primeiras mulheres a trabalhar na frota da companhia. Na primeira vez que embarcou, era a única mulher a bordo do navio Lorena e teve de driblar a estranheza dos tripulantes e o receio dos pais. Foram sete anos no Lorena, durante os quais chegou a imediata – segundo cargo na hierarquia de um navio – e a primeira capitã de cabotagem. O Lorena até ficou conhecido como “o navio da imediata”.
Vou sair de um Fusca e vou para uma Ferrari. Foi um presentão de aniversário."
Hildelene Bahia
Posto mais alto da Marinha Mercante
Em 2009, ao assumir o comando do navio Carangola, com capacidade para transportar 18 mil toneladas de derivados escuros de petróleo, Hildelene se tornou a primeira mulher a ocupar o posto mais alto da hierarquia da Marinha Mercante. Em 2012, foi nomeada capitã de longo curso, e é a única mulher no Brasil apta a navegar pelos mares do mundo inteiro.

“O mercado de trabalho para os marítimos está aquecido e a carreira na Marinha Mercante nunca foi tão promissora. Nesta profissão, é possível ter estabilidade financeira e perspectiva de crescimento acelerado. Por exemplo, cheguei ao posto de comandante em apenas dez anos. O mercado está aberto para todos, independentemente de sexo”, diz.
Navegando mares afora, em 2002 ela conheceu a bordo o marítimo Paulo Roberto, com quem se  casou há três anos. Por quatro anos trabalharam embarcados juntos. Depois, cada um seguiu seu rumo. A administração da casa onde moram na Tijuca, na Zona Norte do Rio, conta com a ajuda da sogra, para ela, uma mãe, que na ausência do casal em suas longas viagens toma conta de tudo, principalmente do cachorro Zezinho, misto de poodle e vira-lata que Hildelene adotou numa feira.
Vanessa Cunha dos Santos Silva, imediata do Rômulo Almeida (Foto: Divulgação/Renata Mello/Transpetro)Vanessa Cunha dos Santos Silva, imediata do
Rômulo Almeida
(Foto: Divulgação/Renata Mello/Transpetro)
Vencida a estranheza inicial da tripulação, que achava que mulheres embarcadas não aguentariam muito tempo longe de casa, Hildelene hoje comanda um supernavio, dando um toque feminino e pessoal ("pode ser um quadro, um porta-retrato, para ficar mais com a cara da gente"), e leva a vida ao lado do marido com quem, sempre que pode, foge da rotina numa viagem tranquila.
"Mas nunca num cruzeiro", brinca ela, que não teme os mares revoltosos do Estreito de Magalhães, mas tem medo de voar e de dirigir.
A aventura de cruzar todos os mares do mundo parece pequena para o próximo desafio que a comandante pretende assumir: ser mãe, e em breve. "Mas não vou abandonar a carreira", afirma.
A imediata Vanessa
Desde menina, Vanessa Cunha dos Santos Silva queria trabalhar na Petrobras. Hoje, aos 30 anos, casada, é a imediata do navio que entra em operação nesta quinta.

Aos 18 anos, formada como técnica em química, foi aprovada nos concursos da Petrobras, Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (EFOMM) e Uerj. Os salários atrativos da Marinha Mercante e a bolsa que recebeu foram decisivos na decisão.
Vanessa, que até então nunca tinha pensado seriamente em ser marítima, apaixonou-se pela carreira e ingressou na Transpetro em 2005, quando mulheres a bordo eram raridade. 
“Tenho muito orgulho de ser uma das poucas mulheres a ocupar um cargo de chefia na Marinha Mercante. Acredito que cada vez mais as mulheres vão optar por seguir este caminho promissor”, afirma ela, que, como Hildelene, conheceu o marido na frota, na época prestador de serviços da Transpetro.
Rômulo Almeida é o quarto navio do Promef
Com o Rômulo Almeida, o Promef soma quatro navios em pouco mais de um ano. Os primeiros foram os navios de produtos Celso Furtado e Sérgio Buarque de Holanda, entregues à Transpetro pelo Estaleiro Mauá, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, e o petroleiro suezmax João Cândido, pelo EAS, de Pernambuco. 

Os números do navio impressionam: somente na estrutura foram usadas mais de 9.100 toneladas de aço, quase o mesmo que o peso da Torre Eiffel, em Paris (10 mil toneladas). Foram 450 peças e tubos pesando 380 toneladas, o equivalente ao peso de 10 vagões de trens. Os 95 mil metros de cabos elétricos superam a distância entre as cidades do Rio de Janeiro e Teresópolis. Ele é mais largo que a Ponte Rio-Niterói (26 metros) e mais alto que o Cristo Redentor (30 metros).
Segundo a Transpetro, a construção do navio mobilizou 2.200 pessoas, transformando o estaleiro numa minicidade. Somente dentro do navio, trabalharam mil profissionais entre soldadores, metalúrgicos, montadores e engenheiros. O Rômulo Almeida tem 72% de conteúdo local.
O navio de produtos Rômulo Almeida na prova de mar (Foto: Divulgação/Renata Mello/Transpetro)O navio de produtos Rômulo Almeida na prova de mar (Foto: Divulgação/Renata Mello/Transpetro)
Com investimento de R$ 10,8 bilhões na encomenda de 49 embarcações, o Promef vem renovando a indústria naval brasileira, permitindo a abertura de novos estaleiros e a modernização dos estaleiros existentes. Segundo a Transpetro, o Brasil tem a quarta maior carteira de encomendas de navios do mundo. A indústria naval brasileira, que no início do século 21 tinha menos de dois mil trabalhadores, emprega hoje mais de 60 mil pessoas.
As encomendas do programa permitiram a criação de três novos estaleiros no país: EAS, já em operação, e STX Promar, em implantação, ambos em Pernambuco; e Estaleiro Rio Tietê (em implantação), em São Paulo, que construirá comboios hidroviários para o transporte de etanol pela hidrovia Tietê-Paraná.
Para a Transpetro, com investimentos de R$ 432 milhões, o Promef Hidrovia é um marco na logística de etanol no país. Serão construídos 20 comboios, cada um formado por um empurrador e quatro barcaças e com capacidade para o transporte de 7,6 milhões de litros de etanol. Quando estiver em operação plena, o sistema poderá transportar até 4 bilhões de litros por ano, substituindo 80 mil viagens de caminhão.

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